Entrevista com António Durão (#5/21)
- Novembro 14, 2023
- Publicado por: Paulo Gafanha
- Categoria: Entrevistas

Olá Durão.
Esta entrevista já está na lista há imenso tempo, no entanto tinha mesmo que ser agora.
Passo a explicar: No último fim-de-semana tive o privilégio de assistir a mais um grande momento protagonizado por ti e a tua equipa, a participação da “tua” Figueira da Foz, com participação de 3 equipas de jovens formada no teu projeto Code.UP no evento global de criação de videojogos, o GAMEJAM+.. Até parece IZZI, certo? 😊
Em conversa nesse mesmo dia dizes-me que vais passar uns dias da próxima semana fora em mais um evento relacionado com projetos ERASMUS em que ias ter oportunidade de falar sobre as metodologias que aplicas na educação e a sua aplicação em contexto escolar. (o homem não para de FAZER, é mesmo verdade…)
Começo a ler o livro “Manhãs milagrosas” e, entre tudo o que tem de bom e transformador, vem uma referência ao livro “Responsabilização total” que me fez lembrar logo de ti e dizer para mim mesmo “é agora que vou escrever a entrevista para o Durão”!… é o momento certo.
Assim sendo, e depois do já fui dizendo e que mesmo assim é tão pouco, diz-me lá de tua justiça…
Quem é o António Durão?
Boa pergunta! Acho que nunca me fiz a mim mesmo essa questão. Penso que sou um eterno insatisfeito. Gosto de me desafiar constantemente, andar por mares nunca dantes navegados e de fazer aquilo que nunca foi feito, parafraseando Camões e Abrunhosa 😊
Penso que fui completamente moldado para a criação e inovação no dia em que toquei no Zx Spectrum 48K. A possibilidade de poder criar o que eu quisesse depois de compreender o funcionamento da máquina e saber que, comunicando com ela, o que eu imaginasse, podia passar a realidade era brutal. Isto com 12/13 anos. Na altura lembro-me que demorei 2-3 meses a aprender a programar em Basic, depois em assembly, e quando dei por mim dava aulas 😊 a todos os meus amigos que passavam horas a jogar e queriam também saber como podiam fazer o mesmo. Foi a ignição, e provavelmente igual a milhares de outras histórias da época.
A partir daí nunca mais parei.
Apaixonei-me pela formação (o meu curso de formação de formadores tem a data de 1991 e foi tirado no curso Inforjovem 1990) e pelo ensino e sempre tentei induzir fatores diferenciadores neste processo. O ensino não tem que ser cinzento nem linear.
Entre licenciaturas, mestrados, Pós-graduações, especializações, formações, passaram-se 30 anos nos quais criei alguns projetos que hoje fazem parte da história da internet em portugal, como por exemplo o portal IUPI , com 2 amigos, que na altura bateu-se “forte e feio” com o que é hoje o SAPO (Serviço de Apontadores POrtuguês). Além do motor de pesquisa criámos o 1º serviço gratuito de POP3 e vários canais temáticos ( 1º canal de jogos, o de empresas e negócios e o de moda). Isto deu-me uma “estaleca” na gestão de projetos que nem na universidade lá cheguei perto. Pelo caminho trabalhei na Infos em Matosinhos e entrei nas linguagens Internet (estávamos em 1997) e comecei a escrever para jornais e revistas sobre o digital e a componente de negócios.
Com a minha esposa, fomos franquiados durante quase 9 anos de um franchising francês de contabilidade e apoio à gestão e durante esses anos ganhámos vários prémios de excelência, marketing, operações e gestão, e neste processo continuei sempre a dar formação em várias áreas onde tinha competências críticas e resultados na implementação de projetos.
Agora estava aqui 2 horas a falar contigo pois fiz mesmo muitos projetos, principalmente entre 2010 e 2015 em vários países dos PALOP onde cheguei a trabalhar no ministério da economia moçambicano como diretor de estratégia de um dos maiores projetos (à data) do governo da altura que era o “Made in Mozambique”. Enquanto lá estive também fui diretor de marketing de uma das maiores empresas de TI de Moçambique, que ainda existe e mantém esse estatuto, a Triana. Este trajeto foi sempre com o meu amigo Paulo Nazaré, outra máquina de fazer acontecer.
Passei por Cabo Verde e São Tomé, onde ajudei a formatar um ecossistema empreendedor que ainda existe, com os meus queridos amigos António Almeida e Carlos Boa Morte.
Temos que também ter a sorte de estar rodeados de pessoas com o mesmo mindset que nós, e tudo isto nunca seria possível sem ter a meu lado a Sílvia, a minha esposa. Somos feitos da mesma fibra e desde os 18 anos que tudo o que tenho feito é também por tê-la como backup. NUNCA estamos sozinhos.
Empreendedor, escritor, político, professor, programador (videojogos). Estas são facetas que conheço tuas, todas com projetos interessantes. O que une todas estas vertentes da tua vida? O que te move?
A inovação e a necessidade de criar sempre novas “coisas”. Por exemplo, eu dei aulas numa escola quase 3 anos. Consegui transportar para dentro da sala de aula a prática, ou seja, a verdadeira utilidade dos conteúdos. É importante que os alunos compreendam o “know-why” além do “know-how”. O nosso ensino é muito teórico, chato e cinzento e alguns professores estão formatados para isso mesmo. É como em tudo. Não estou a dizer mal. Estou a constatar um facto!
Essa parte de saber que posso estar a contribuir para um futuro, a motivar e a inspirar uma criança, um jovem, a pensar sempre mais além do que lhe é pedido é uma boa sensação.
E toda a minha experiência de vida (esqueci-me de referir que ainda tive tempo de passar 18 meses como operacional do centro de operações especiais do exército, que me deu uma visão da liderança única) tem sido tão diversificada e útil que consigo dar conteúdos quase globais aos meus alunos com exemplos práticos pois vivi-os. Não os li em nenhum livro, ou numa qualquer ação de formação a um sábado de manhã. 😊
Move-me pois o saber que a imaginação é o nosso limite e que podemos sempre criar novas formas de fazer o que quer que seja. Que devemos errar para aprender. Que devemos pedir ajuda quando não sabemos. Que podemos ser o que quisermos se nos focarmos. E que nada é impossível.
Parecem lugares-comuns, mas é a minha história de vida.
Conheci-te num evento de networking e a verdadeira aproximação surgiu com o teu projeto CODE UP e a minha ida à Figueira da Foz para te conhecer (e ao projeto) in loco no final do primeiro ano de atividade. Este é um projeto inovador que tem trazido muita coisa boa para a educação.
Olho para ti e não consigo de pensar nesta passagem no livro Extreme ownership:
“Para implementar uma mudança real, para levar as pessoas a alcançar algo verdadeiramente complexo, difícil ou perigoso – não é possível obrigar as pessoas a fazer este tipo de coisas. Tem de as liderar.“
O que vi no último evento que estive presente foi mesmo o reconhecimento de um líder.
Podes explicar melhor a história deste projeto, o que tens alcançado e onde pretendes chegar?
Obrigado pelas palavras.
A liderança pratica-se, como sabes. Com ações. A olhar para as pessoas, tentar compreendê-las (todos temos uma história e um passado que nos define e nos fez o que somos hoje, pelas mais variadas razões, boas ou más) e perceber onde e como elas podem ser felizes no futuro é um bom ponto de partida. Basicamente eu criei uma escola de programação de videojogos, em 2017 porque achei que seria um excelente ponto de partida para ensinar tudo o resto.
Todos jogamos. Todos adoramos um bom jogo. Seja ele de entretenimento ou mais sério. Estamos descontraídos, disponíveis para tudo em termos sensoriais. Então construi um currículo com base neste pressuposto. Comecei a reparar que, mesmo em crianças mais novas eu conseguia induzir conceitos matemáticos e físicos (movimentos, colisões, equações, fórmulas de cálculo de trajetórias, por exemplo) e eles entendiam o contexto, conseguiam compreender o processo e faziam as coisas certas e bem feitas (o tal conceito de eficácia e eficiência) no “final do dia”. Isso levou-me a ir refinando os conteúdos até ter um currículo completo que hoje tem o selo InCode.2030, uma certificação DGERT e somos uma “ESCOLA” onde se aprende não apenas tecnologia, programação, design de jogos, mas também gestão de projectos, como fazer um bom “pitch”, planos de negócio, produção, programação, design e até já damos estágios para alunos de escolas secundárias e universidades.
E todas as aulas eu tento puxar os limites um pouco para cima.
E eles correspondem! Aos poucos, e CONSOLIDANDO (o mais importante no processo) vão evoluindo, e o resto tu viste o que se passou no dia 21 de Outubro com 24 jovens (M/F) a fazerem algo extraordinário: estamos a produzir um jogo para o nosso concelho, e que deve ser o primeiro instrumento de marketing territorial na forma de jogo 2D para promoção da Figueira da Foz. Está a ficar espectacular e profissional. Tu viste a demonstração… 🙂
Vi mesmo 😊 O teu trabalho com este projeto CODE UP ganhou outra escala quando conseguiste colocar pela primeira vez os teus alunos a participar num evento internacional de criação de videojogos, o GameJam+.
Podes explicar melhor como surgiu essa ligação, o que já permitiu alcançar e o que se pode ainda esperar?
A ligação começou em 2020, quando eu encontrei na internet a organização da GameJam, e como cá em Portugal não havia nada (afinal descobri que havia mas… pouco se sabia ou falava) eu entrei em contacto com o Ian Rochllin, o CEO e disse que queria que Portugal tivesse uma visibilidade maior neste contexto. Depois de alguns meses de reuniões e de nos conhecerem convidaram-me para fazer parte da equipa global da GameJam, ou seja, da organização mundial. E desde então Portugal, mais concretamente a Figueira da Foz tem sido uma das mais dinâmicas sedes internacionais. Temos estado em vários vídeos deles como destaque, fui premiado como o “Highlight of the year” em 2022 no Rio de Janeiro, onde os 2 jogos em que fui mentor ganharam o jogo do ano e o melhor jogo da Latam. Foi épico.
O resto é história.
Os meus CodeUper’s estão aptos a concorrer “Taco-a-Taco” com qualquer outra sede internacional sejam eles universitários ou estúdios. A prova do que digo aconteceu este ano, com um dos mais premiados produtores de jogos da GameJam, O Flávio Parah ter-nos abordado para este ano fazer a GameJam+ connosco, o que foi uma honra para nós.
Neste processo tenho feito uma rede de contactos global que continuo a trabalhar diaria e continuamente em mais de 15 países e que hoje começa a dar frutos noutros projetos em que estou a trabalhar, nomeadamente ERASMUS.
“Liderar para cima na cadeia de comando exige mais astúcia e competência do que liderar para baixo na cadeia de comando. Ao liderar para cima, o líder não pode contar com a sua posição de autoridade. Em vez disso, o líder subordinado deve usar influência, experiência conhecimento, comunicação e manter um elevado nível de profissionalismo
Koko Willink e Leif Babin, “Extreme ownership [responsabilização total] Como os U.S. Navy Seals lideram e vencem “
Sentes que estás a (pelo menos tentar) liderar para cima? E para cima estou a referir-me às entidades com responsabilidade na educação que deviam olhar com mais atenção para este tipo de projetos inovadores e diferenciadores.
É que, como dizes, já participas em projetos ERASMUS e há reconhecimento com desafio para novos projetos.
Qual é a importância destes projetos na tua estratégia? O que recomendas a quem queira também participar neste tipo de projetos?
Estes projetos são imprescindíveis. Não tinha ainda mencionado, mas sabes que nestes “entretantos” e aproveitando a pandemia, tirei 2 pós-graduações online em conceituadas universidades internacionais, Harvard e MIT e faço parte do projeto CS50 do David Malan, além de que sou facilitador certificado da Lego Serious Play e estou a terminar o curso da Pixar sobre Storytelling. Nos tempos que ainda me sobram 😊 faço produção de jogos de tabuleiro e estudo as relações entre o ensino formal e o processo de produção de jogos (no geral). Já dava para tirar o doutoramento, o que tenho como material não apenas de estudo, mas de RESULTADOS. Provas de conceito com alunos desde os 5/6 anos até à universidade. O que fui fazer à grécia ao congresso onde estiveram alguns dos maiores especialistas na área da educação e das ICT foi precisamente isso: defender o meu modelo de ensino, e foi MUITO BEM recebido e agraciado. Vai dar-nos certamente muitos projetos para participar até 2030 pois muitas entidades presentes nunca tinham olhado para o “problema” da perspetiva que eu comecei a analisá-los. Somos seres analógicos. O digital é e será sempre uma ferramenta. Neste entremeio temos que criar vantagens competitivas e comparativas onde a máquina (IA, por exemplo) dificilmente se poderá meter. O resto não posso dizer pois é a MINHA vantagem competitiva (HEHEHE).
Com tantas provas dadas, com tantos projetos de sucesso e tantos que ainda hão-de vir, qual é o legado que gostavas de deixar?
Nunca pensei nisso. Adoro o que faço. Tenho uma paixão pelo ensino e pela forma descontraída como o ensino pode ser. Também “estudei” Montessori e o modelo da Escola da Ponte e tudo isto bem misturado com conta, peso e medida pode, de facto, criar um contexto de aprendizagem em que nos podemos divertir à grande a aprender, com um grau de consolidação de base nunca visto.
Eu disse este exemplo na grécia e posso terminar com isto: também sou explicador de física e quimica dos secundários (é verdade 😊 ) e o ano passado 2 alunas de uma turma do 11º ano estavam com muitas dificuldades em compreender o “Príncipio de Le-Chateliêr”. O meu último reduto foi meter a turma a construir um jogo sobre o conceito. No processo ela voltou a olhar para a teoria e para os enunciados dos exercícios de outra perspetiva. Tenho um vídeo fantástico dela a reagir ao facto de ter compreendido em pouco mais de 90m o que lhe tinha demorado uma semana e meia nas aulas, e comigo e mesmo assim não tinha “visualizado a coisa”, como ela disse. É apenas 1 mero exemplo. Tenho largas dezenas.
O meu legado é simples: não compliquem o ensino. Tentem encontrar um equilíbrio que consiga incluir todos os alunos pois as turmas são heterogenias. E não deixem ninguém para trás. É cómodo ter uma matriz, mas isso é coisa do passado. Como professores, tutores, mentores, formadores, etc.. temos a RESPONSABILIDADE de tentar (pelo menos tentar) dar as melhores ferramentas aos nossos alunos/formandos/mentorados. E isso NÃO é feito numa sala de aula! Infelizmente tenho centenas de PÉSSIMOS exemplos, sabendo que há EXCELENTES exemplos. A questão é que quem tem o azar de ter um mau exemplo, já está em desvantagem de quem tem um bom exemplo como mentor.
E todos os meus alunos sabem uma coisa: “O dia mais fácil foi ontem” 🙂
Que livro aconselharias a qualquer pessoa como “leitura obrigatória”?
Simples: VENCER de “Jack Welch”, a história REAL de como tornou o grupo GM um portento global com as suas ideias disruptivas
E obrigado por esta excelente conversa. Por vezes sabe bem relembrar todo o nosso lastro.
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